quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Carnaval 2014 - Análise dos Sambas de Enredo por Luis Carlos Magalhães



O pesquisador Luis Carlos Magalhães, a exemplo do que faz com os sambas cariocas, e, recentemente fez com os sambas de Uruguaiana/RS, felizmente aceitou o nosso convite para realizar uma breve análise dos sambas 2014 que estarão na Avenida Presidente Vargas nos dias 03 e 04 de março.
Ele é diretor cultural da Portela, comentarista da Rádio Tupi e colunista do site Carnavalesco.com
Baseados nos títulos do Enredo, nos áudios e nas letras, Luis Carlos Magalhães nos remeteu, via e-mail, as seguintes conclusões:

"Achei ótimo o nível e o astral dos sambas". (L.C.M.)

  • UNIDOS DA TAMANDARÉ:
Aqui também o enunciado do enredo e a letra do samba são mais que suficientes para suprir a sinopse. Tal como aqui no Rio (como MOCIDADE INDEPENDENTE) os compositores não perderam a chance de dar um "forrozeada" bem no meio da primeira parte. É o samba que tem os dois refrãos mais equilibrados. O único risco que sinto é a grande quantidade de informações contidas na segunda parte. Costuma prejudicar o encadeamento dos versos entre si, tornando difícil a elaboração melódica. Mas o samba é forte, vai fazer a escola pisar forte. A conferir na avenida.

  • ACADÊMICOS DO CAMPO DO GALVÃO:
É o samba do ano. Em princípio achei que era alusivo aos 40 anos de carnaval de Guaratinguetá. Quando vi a data da fundação percebi que era aniversário da escola. É empolgante e bem feito. Usa bem os tempos vagos, espaços vazios para evitar atropelos na métrica bastante comuns nos sambas daí, pelo menos deste ano. Cita fatos e baluartes na medida certa a não se tornar mais um samba "enumerativo" com fatos e nomes em quantidade que prejudique a melodia.

  • MOCIDADE ALEGRE DO PEDREGULHO: 
Aqui senti falta da sinopse. O simples enunciado do enredo não deixa claro a intenção do enredo. É o FREVO? Ou será o FREVO se destacando em meio aos demais ritmos brasileiros?
Se for a primeira hipótese, acho que pode perder alguns décimos porque viaja em torno desses ritmos tirando o foco do FREVO (samba, maracatu, maculelê, maxixe, gafieira, capoeira), mas, se for a segunda hipótese (e tomara que seja) o enredo abre possibilidades para mostrar a coreografia da lundu, maxixe, polca, e até a umbigada que acabaram por formar nossa cultura musical. Aí vai ser show de bola. E nesse sentido o samba vai “acontecer", com certeza.
Há uma "forçadinha de barra" na métrica do último verso do segundo refrão: "Um 'fervo' nos pés e sombrinha na mão". Penso que a solução ali seria "fervo nos pés com sombrinha na mão".
De uma maneira ou de outra, confesso ter ficado um pouco confuso com a expressão "SAMBAR com meu amor do trio ao Galo da Madrugada". Será que alguém consegue "sambar" no Galo da Madrugada? Ou será aqui uma licença poética? Com a palavra os julgadores oficiais.

  •  EMBAIXADA DO MORRO: 
Muito boa ideia do enredo; muitas possibilidades de desenvolvimento. Tanto que neste caso a sinopse (que pra mim é fundamental na análise) não fez falta. O próprio enunciado do enredo e a letra do samba foram mais que suficientes.
Para o desfile, tenho certeza que o samba vai superar sua função primeira de ser a trilha sonora do enredo. Mais que isto, tem bons momentos que certamente pesarão na boa nota que prevejo que alcance. Um senão fica por conta daquela "forçadinha de barra" na métrica do último verso do segundo refrão: (...) quando a embaixada (...). Passaria até mais facilmente se não fosse no refrão. E, sabemos, falha de métrica no refrão final...é fatal.
  
  • BONECOS COBIÇADOS: 
Outro samba que não precisou do auxílio da sinopse. Muito bom. Gostei muito. Nada a acrescentar. Bem feito, puxa-escola, harmônico, equilibrado nas duas partes e dois refrões. Além disso... tem um belo enredo.

  • BEIRA RIO DA NOVA GUARÁ: 
Rapaz, não consegui nenhuma referência sobre AONDÉ Ñ AMANDU. Quanto à melodia, é o samba melhor resolvido em seu conjunto primeira parte/refrão. Mas é também o que foi menos na segunda parte. Dá impressão que um compositor fez a primeira, e foi feliz, e outro compositor fez a segunda, e não foi feliz. Ficou assim um samba irregular, com uma bela primeira parte. Por mim perderia ponto também pela forçadinha na métrica (mais uma vez este ano) no começo do segundo refrão.


Por Luis Carlos Magalhães
Pesquisador e Colunista Carnavalesco


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